O cinema brasileiro vive um momento histórico, e Isadora Ruppert tem sido uma das protagonistas dessa nova fase. Após integrar o elenco de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, a atriz volta aos holofotes com O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, selecionado para representar o Brasil na edição de 2026.
“É uma alegria indescritível, é difícil até colocar em palavras. O nosso cinema vem vivendo uma fase muito especial, e poder vivenciar isso de perto e integrar o elenco desses dois grandes filmes é a realização de um sonho”, afirma Isadora, que descreve o momento como “a vida prestando e muito”.
Em entrevista exclusiva ao GLP4, a atriz falou sobre o impacto de viver personagens que dialogam com a história recente do país, a emoção de Cannes e a importância de manter viva sua relação com o teatro.
“O Agente Secreto” e a força da memória
Sem poder revelar detalhes sobre a personagem Daniela, Isadora adianta que o novo filme discute o Brasil e sua relação com o esquecimento. “Infelizmente, no Brasil temos um lapso de memória quando se trata de preservação de arquivos e da nossa história. A minha personagem contribui para que possamos ficar atentos em relação a isso. É muito importante sabermos de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir”, explica. Para ela, essa consciência histórica é essencial “para não cometermos os mesmos erros do passado”.

Cannes, de um sonho adiado a uma consagração
Isadora estreou em Cannes em 2021 com Medusa, mas não pôde comparecer devido à pandemia. Quatro anos depois, o retorno foi apoteótico. “Em 2025, tudo foi muito além do que eu poderia ter sonhado. Foi lindo estar naquele festival, cercado de brasileiros — éramos mais de 400”, relembra.
Sobre o momento mais marcante, ela é direta: “Achei que já tinha vivido tudo o que podia naquele festival, mas aí chegou o dia da premiação e fechei com chave de ouro. Estar em Cannes, ver um filme brasileiro sendo enaltecido, foi surreal. E terminar dançando com Panahi, os Irmãos Dardenne e Jeremy Strong foi o ápice.”
Da formação teatral à precisão da câmera
Formada pela UNIRIO e integrante da Má Companhia de Teatro, Isadora defende que o palco é “o lugar onde tudo começou”. “O teatro é minha casa, meu porto seguro. É o que me lembra por que escolhi fazer isso”, afirma.
A transição para o audiovisual, no entanto, exigiu técnica e adaptação. “No cinema, é tudo para ontem. Busquei o Eduardo Milewicz porque eu precisava de precisão. A câmera capta tudo, até o que tentamos esconder. Depois de três anos estudando com ele, hoje me sinto muito mais à vontade e preparada.”
A herança familiar e o dever de contar histórias
Neta de uma artista perseguida pela ditadura militar por ter uma companhia de teatro de bonecos, Isadora carrega essa história como parte da sua missão. “Cresci ouvindo minha avó falar sobre isso, explicando as canções de Chico Buarque e me ensinando política desde cedo. Sinto que é meu dever contar essa história que me atravessa tanto. Não acredito em coincidências. Tudo se mistura de uma forma coerente e bonita.”
O olhar de uma geração do novo cinema brasileiro
Com uma trajetória marcada por escolhas autorais e engajadas, Isadora Ruppert simboliza uma geração que tem colocado o cinema brasileiro em destaque mundial. “Ver o nosso trabalho chegar tão longe, sendo respeitado e aplaudido, é a prova de que a arte resiste — e floresce, mesmo nas maiores dificuldades.”
Fonte:www.glp4.com